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USO DA FÁBRICA TACARUNA COMO POLO DE PESQUISAS ENTERRA PROJETO CULTURAL

 Espaço foi cedido para o Centro de Pesquisa, Desenvolvimento, Inovação e Engenharia Automotiva da Fiat Chrysler



Luiza Maia

Prédio inaugurado em1895 foi tombado pela Fundarpe em1994. Foto: Julio Jacobina/DP/D.A Press
Prédio inaugurado em1895 foi tombado pela Fundarpe em1994. Foto: Julio Jacobina/DP/D.A Press

Após mais de uma década de projetos, licitações, estudos, reformas e promessas, o projeto de erguer um centro cultural na área de 55 mil metros quadrados da antiga Fábrica Tacaruna foi arquivado e não terá um substituto. O espaço, construído em 1895 e estrategicamente posicionado entre o Recife e Olinda, foi tombado como Patrimônio Histórico Estadual pela Fundação do Patrimônio Artístico e Cultural de Pernambuco (Fundarpe) e pelo Conselho Estadual de Cultura, em 1994. Dará lugar a um centro de pesquisas da Fiat.
A troca de um polo artístico por um empreendimento de uma multinacional tocou na ferida da destinação de espaços públicos para uso não-comercial - desafio recorrente nos grandes centros urbanos contemporâneos. O anúncio gerou repercussão e até uma página no Facebook, “A fábrica é nossa”, com mil seguidores. “Trocaram cultura por automóvel… Não se tem um país, uma cidade, uma sociedade baseada apenas no capital, no consumo”, desabafou o músico Rogerman. O produtor Paulo André faz coro. “Recife e Olinda têm vocação para se transformar em referências culturais. Mas precisamos de todos os equipamentos funcionando. Não sou contra o desenvolvimento, mas o progresso não pode colocar a cultura embaixo do tapete”, pontua.
A Fábrica recebeu shows, exposições, espetáculos teatrais e circenses. “Era importante como equipamento cultural, mas nunca esteve apto. Era preciso mobilizar tudo para ele existir como tal. É uma perda gigante”, acredita a produtora Danielle Hoover, que realizou o Festival de Circo do Brasil no local em 2003 e 2004.
O prédio foi comprado em 2000, por R$ 14,3 milhões, pelo governo do estado, para construção de equipamentos culturais e atividades de formação. De lá para cá, foram anunciados investimentos de cerca de R$ 7 milhões entre reformas e formação de profissionais, como pós-graduação na França para uma equipe de 13 concursados. “Existe um desconforto de minha parte por eu ter ido à França com o dinheiro público para me capacitar e não poder dar a contrapartida”, lamenta Germana Aciolly.
Em 2000, o governo anunciou o Centro Cultural Tacaruna. Em 2009, nova promessa: o Centro de Cidadania Padre Henrique. Teria três cinemas, três teatros, um museu virtual, um espaço para gravação e edição de música, cinema e vídeo em formato digital, uma escola integral e um centro de cidadania.  Na quinta-feira (3), o espaço foi cedido para o Centro de Pesquisa, Desenvolvimento, Inovação e Engenharia Automotiva da Fiat Chrysler.
“Entendeu-se que este é um projeto de maior potencial transformador da vida social e econômica de Pernambuco”, argumenta o secretário de Desenvolvimento Econômico de Pernambuco, Márcio Stefanni. Há quatro meses, após estudo de viabilidade, a área foi cogitada para a parceria com a montadora. “O projeto poderá preservar a memória industrial do estado, marcando um novo ciclo de desenvolvimento econômico”, pontua o presidente da Fundarpe, Severino Pessoa. Não há planos de lançamentos de equipamentos culturais do porte no estado. (Colaborou Camila Souza)
Tacaruna no tempo

Foto: Arquivo/DP/D.A Press


Foto: Arquivo/DP/D.A Press

1895

Inaugurada a Fábrica Tacaruna, formada pela unidade industrial e uma torre, a primeira fábrica de açúcar em tablete do país. O prédio foi projetado por Delmiro Gouveia
Início do século 20

Espaço é transformado em uma refinaria de açúcar da Usina Beltrão.
1925

Comprada pela Tecelagem Paraíba e transformada na Companhia Manufatora de Tecidos do Norte
1994

Tombado como Patrimônio Histórico Estadual pela Fundação do Patrimônio Artístico e Cultural de Pernambuco (Fundarpe) e pelo Conselho Estadual de Cultura
1997

Primeiro evento cultural é realizado no espaço, Mônadas - Maratona de Linguagens, com 48 horas seguidas de instalações artísticas.
2000

Governo compra imóvel por R$ 14,3 milhões e publica decreto para criação do Espaço Cultural Tacaruna
2001

Realizados um concurso público de arquitetura para a escolha do projeto de reforma do prédio e uma seleção de bolsistas que viajam à França para se capacitar. Investimento é de mais de R$ 500 mil. Orçamento do projeto, à época, variava de R$ 20 milhões a R$ 27 milhões
2003 a 2005

Primeira etapa de reforma da Fábrica Cultural Tacaruna, orçada em R$ 1,3 milhão. Recuperado o sistema de cobertura do prédio central
Nação Zuambi se apresentou no espaço em 2007. Foto: Jaqueline Maia/DP/D.A Press

Nação Zuambi se apresentou no espaço em 2007. Foto: Jaqueline Maia/DP/D.A Press
2006

Em julho, é autorizado o início da segunda etapa da reforma, orçada em R$ 5 milhões. Projeto atingiria 30 mil metros quadrados e compreenderia a pavimentação da via local para acesso ao prédio do estacionamento e de toda a área externa, demolição de galpões, plantio de árvores, transformação de antigos reservatórios em espelho d’água e construção de praça com palco para shows e eventos
2009

Em agosto, é anunciada  a transformação do espaço na Centro de Cidadania Padre Henrique, vinculado à Secretaria da Criança e da Juventude, com três cinemas, três teatros, um museu virtual, um espaço para gravação e edição de música, cinema e vídeo em formato digital, uma escola integral e um centro de cidadania. Orçamento de R$ 45 milhões seria liberado pelo governo federal até 2010
2009

Interrupção da realização de shows no espaço até a inauguração do Centro de Cidadania Padre Henrique pelo Ministério Público de Pernambuco. Em 2009, foi realizado O Maior Show do Mundo, com Ivete Sangalo e Belo
2010

Último show na Fábrica Tacaruna foi o Olinda Beer, em 2010
2012

Em junho, governo publica edital para nova reforma, orçada em R$ 20 milhões, e anuncia início das obras para agosto
2014

Anunciado como Centro de Pesquisa, Desenvolvimento, Inovação e Engenharia Automotiva da Fiat Chrysler, o 4º no mundo

Fonte: Diário de Pernambuco

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