Em 1968, depois de participar de alguns importantes
projetos e espetáculos, que levaram a uma revalorização do samba em
meados dos anos 60, Paulinho da Viola teve direito ao primeiro disco
solo, Foi um rio que passou na minha vida. Com o repertório deste disco,
ele aterrissou no Recife pela primeira vez. Um ilustre desconhecido,
não conhecia quase ninguém na cidade, não sabia nem onde iria se
hospedar; “Fui para passar alguns dias. Fui ficando, fazendo amizades,
acabei passando mais de um mês. Eu não podia ficar num hotel este tempo
todo, e uma senhora me acolheu na casa dela, Dedé Aureliano, me tratou
como filho. Tornou-se uma relação de amizade muito grande. Ela me
escrevia sempre, longas cartas, como faria com um filho dela. Pediu
inclusive autorização à minha mãe para me chamar de filho. Sempre que eu
vinha ao Nordeste, mesmo que não fosse para fazer show no Recife, eu ia
visita-la. Depois que ela faleceu, continuei visitando Cláudia, a filha
dela”, conta Paulinho da Viola. Em 1968, ele apresentou, no extinto
Teatro Popular do Nordeste, na Conde da Boa Vista,, com os
pernambucanos Zélia Barbosa e Paulo Guimarães(já falecido), o musical A
bossa, a prontidão e outras bossas. Alguns anos mais tarde suas relações
com o Recife quase estreitam mais quando ele participou de um grupo que
incluía integrantes do MPB-4, Maurício Tapajós, de uma tentativa de
adquirir a gravadora Rozenblit, já afundada na crise de que nunca
conseguia se recuperar: “Houve esta intenção, tivemos algumas reuniões
com seu Zé Rozeblit, para uma parceria, mas a negociação não vingou, nem
lembro mais exatamente porque”. Paulinho da Viola afirma que eles não
chegaram a gravar na Rozenblit, como se propagou na época. E
estreitou-se quando conheceu Canhoto da Paraíba, ou Chico Soares, como
chamava o violonista (falecido em 2008). Tornou-se seu maior divulgador e
maior admirador. Além de produzir dois álbuns de Canhoto, Paulinho
participou de um terceiro, e ainda viajou por várias cidades do país com
o violonista pelo Projeto Pixinguinha. Paulinho da Viola volta à
cidade e se apresenta sábado, no Teatro Guararapes, um show com músicas
suas e de compositores que admira: “Não é um espetáculo em função de um
trabalho novo, como era o costume se fazer. Meu último disco foi o
acústico em 2008. AS coisas mudaram bastante. Então este show tem um
repertório com músicas que não canto há muito tempo, outras que não
posso deixar de cantar, algumas que gosto de cantar”. Talvez inclua
alguma inédita, embora não componha mais com a mesma intensidade dos
anos 60 e 70, ele diz que tem vários sambas inéditos, mas que não sabe
quando será faz um disco novo: “Não tem música suficiente, mas a
inspiração vem quando a gente começa a gravar. Tudo mudou, as pessoas já
falam em acabar com o CD”. Mudou não apenas a indústria, como a
maneira de fazer música, as escolas não são mais as mesmas, há alguns
anos o portelense Paulo César Faria, não visita mais sua escola com
tanta frequência: “É outro universo. Acontece comigo o que aconteceu com
Cartola. No começo dos anos 60, ele foi convidado pra assumir um cargo
na Mangueira. Depois de assistir a alguns ensaios, ele aceitou, alegando
que estava tudo muito diferente do tempo em que ele participava da
escola. Também sinto isso, embora continue indo para a feijoada que a
Velha Guarda faz todo primeiro sábado de cada mês”. No entanto, Paulinho
não é de acalentar nostalgias, apego ao passado. Reconhece que o samba
não para, continua sendo feito por novos autores, com um novo formato:
“Tenho viajado por ai, e encontrado grandes músicos. Fui fazer show em
Buenos Aires e fui apresentado lá a um pessoal que fazia samba. Em Minas
tem um grande cavaquinista, um garoto chamado Varlei”. Um dos mais
inspirados talentos de uma geração que deu nomes como Caetano Veloso,
Gilberto Gil, Francis Hime, Elis Regina, Paulinho da Viola concedeu esta
entrevista ainda sob a emoção do falecimento de um dos melhores
cantores de sua geração, o paulista Jair Rodrigues: “Ele amigo de todo
mundo, ninguém falava mal dele. Era aquele cara brincalhão, mexendo com
todos, e colocava sua marca nas músicas que gravava. Se você pegar Foi
um rio que passou na minha vida vai ver que no final não tem aquele
laialara, laialara. Quando Jair gravou ele acrescentou isto à música, e
as pessoas se identificaram tanto com sua interpretação que toda vez que
eu terminava, a plateia continuava com o laialara, fui obrigado a
incorpora-lo ao samba. Quando ele me encontrava brincava, me chamando de
parceiro”. Filho do grande violonista, César Faria (do lendário
regional Época de Ouro), Paulinho da Viola foi o renovador do samba
carioca fazendo a ponte entre a velha guarda e a geração que se abrigou
na sigla MPB. No começo dos vinte anos, o ainda bancário Paulo César
Batista de Faria, em 1965, formou no grupo A Voz do Morro (com Anescar
do Salgueiro, Élton Medeiros, Jair do Cavaquinho, Zé da Cruz e Zé Keti),
com quem gravou, os dois volumes do álbum Roda de samba. Ainda em 1965,
participou do Rosa de ouro, histórico espetáculo encabeçado pelas
cantoras Aracy Côrtes e Clementina de Jesus, o conjunto Rosa de Ouro,
quase a mesma turma do A Voz do Morro, acrescida de Nelson Sargento. Com
o parceiro Elton Medeiros (como ele renovador do gênero), dividiu um
álbum em 1966; Só então partiu para formar uma das mais sólidas obras
musicais de um artista popular brasileiro nos últimos 50 anos. O show
de hoje, diz ele, terá entre 20 a 22 músicas, entre elas o clássico
Para um amor no Recife, composta para a “mãe” Dedé Aureliano,gravado em
1971. Show com Paulinho da Viola e banda, 21h, Teatro Guararapes,
ingressos: R$ Plateia especial: R$ 200 e R$ 100; Plateia: R$ 180 e R$
90; Balcão: R$ 160 e R$ 80 (meia). Fone: 3182-8020.
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