MARIA RITA FALA SOBRE NOVO DISCO E COMPARAÇÕES COM ELIS REGINA
Cantora rebate as comparações com a mãe,
"as pessoas que ousam dizer que eu a imito, perco o respeito na hora,
fecho a porta na cara"
Gabriel de Sá - Correio Braziliense
Rio –
Maria Rita começava a contar um caso sobre a mãe, Elis Regina, quando
foi subitamente acometida por calafrios. “Eita!”, disparou, passando a
mão pelo braço. As recordações, como se pode ver, ainda comovem e
arrepiam, porém ser filha de uma das maiores cantoras do país já não
assombra mais a intérprete de 36 anos, nascida em São Paulo.
Com
pouco mais de uma década de carreira, cerca de dois milhões de discos
vendidos e sete prêmios Grammy Latino na estante, Maria Rita, como ela
mesmo diz, pode “dar uma banana” para quem acha que ela ainda imita a
mãe, morta em 1982. Lançando novo álbum, Coração a batucar,
repleto de sambas, a cantora recebeu a reportagem para uma conversa
exclusiva de quase uma hora em um hotel no bairro carioca de Santa
Teresa. Sincera e tagarela, mostrou-se muito mais extrovertida do que
deixa transparecer: não fugiu a nenhuma questão e dissecou sem pudores a
relação póstuma com a mãe.
ENTREVISTA//
Você relutou, no começo da carreira, em abordar o repertório de sua mãe. Depois, acabou fazendo o projeto Redescobrir. O que te fez mudar de ideia?
Pensei:
quantos anos eu tenho? Quantos discos de ouro? Quantos países eu já
visitei? Daí comecei a me perguntar o que eu devia para as pessoas (que
me comparam a Elis). Nada. “Agora, tenho que provar para mim mesma. Eu
sou capaz de cantar essas músicas?” Sou. E ninguém hoje no Brasil faz
tão bem quanto eu fiz. Fiquei muito emocionada: estava lá como filha.
Hoje,
você tem a mesma idade que sua mãe tinha quando morreu. Você está no
auge e tem uma caminhada longa pela frente, algo que ela não pôde ter.
Isso
mexe muito comigo. No dia em que eu fiz aniversário, foi estranho, como
se eu tivesse perdido ela pela uma segunda vez. Agora eu estou sozinha,
porque sei o que ela fez até os 36 anos. Minha mãe era genial, linda, e
me inspira – como todas as mães e pais devem inspirar os filhos. Não
tenho mais como comparar. Com 37, ela fez o quê? O que conquistei em 10
anos está longe do que ela teve. Mas não existe uma mãe e uma filha na
música que conseguiram o mesmo sucesso que a gente fez. Os filhos do
Lennon não chegaram lá. Os do Stevie Wonder também não. Depois de 10
anos, eu posso dar uma banana pra quem acha que eu ainda imito a minha
mãe.
Comparações ainda te incomodam?
Não
me incomodam porque ninguém nasce do nada. Filha de chocadeira, eu não
sou. Acho as acusações inadmissíveis. As pessoas que ousam dizer que eu a
imito, perco o respeito na hora, fecho a porta na cara. Uma mãe e uma
filha são iguais porque é assim que a genética explica. Não estou
inventando nada. Reconquistei uma relação com a minha mãe. Na
adolescência, quando me sentia solitária, ouvia uma música dela e me
sentia melhor. Larguei por causa dessas pessoas. Daí eu decidi que agora
“vocês vão ver bem como é o negócio”.
Você é filha também de César Camargo Mariano. Pretende fazer algum projeto musical com ele?
Não.
Já até pensei, mas meu pai é meu pai. Acho que se a gente trabalhar
junto, eu não sei. Algo me diz que, pelo menos, não agora. Meu pai é
muito experiente, ele é tão incrível no que faz, e eu sou tão
centralizadora. Jogar nessa cumbuca o fato de ser pai e filha, eu não
sei no que isso pode resultar.
Será publicada em breve uma
biografia da Elis, escrita pelo jornalista Júlio Maria. Você já leu? O
que acha de os filhos terem que aprovar esse tipo de publicação?
Estou
com a prova do livro, mas não li ainda. Acho que essa vai ser “a”
biografia de Elis, porque a outra (Furacão Elis, de Regina Echeverria)
não é, não. Existem situações e situações, mas, no geral, acho
necessária a autorização, sim. Estão escrevendo uma biografia de uma
pessoa que não está aqui pra contar o seu lado da história. Acho que o
artista tem, sim, direito à privacidade. É uma interferência na vida de
uma família. Fica um revanchismo de “quem manda ser famoso”. A pessoa
que tem uma carreira pública, quando acorda de manhã, não é a mesma do
palco. Tenho total direito de fazer com que meus filhos não saibam de
algumas coisas da minha vida.
Você viu a peça Elis, a musical?
Não,
estava gravando na época. Não estou pronta para assistir, mas fico
muito feliz com o resultado. Eu não tinha dúvidas de que o resultado
seria honesto e íntegro. Na estreia, mandei um buquê para o elenco.
No
novo disco, você canta Saco cheio, de Almir Guineto, que critica o fato
de que “tudo que se faz na Terra/Se coloca Deus no meio”. Você acredita
em Deus?
Não sou religiosa. Durante muito tempo, fui
completamente ácida em relação a isso. Não conseguia acreditar em um
deus que tirava a mãe de uma criança de 4 anos de idade. Então, minha
relação de desentendimento passava pela perda da minha mãe. Mais tarde,
tive um ataque de pânico e achei que fosse morrer. Comecei a perceber
que tinha algo maior. Eu acredito em um deus. Acredito que aquele tal de
Jesus Cristo existiu de verdade. Mas não sou de uma religião.
Samba meu (2007), seu primeiro disco de samba, passava a impressão de ser mais solar do que o Coração a batucar. Isso reflete a fase que você vive atualmente?
Não. No Samba meu,
queria que não ficassem dúvidas do tipo de samba que eu gosto de ouvir,
de fazer. Comprei uma briga. Era outro momento, era a turma de quem eu
frequentava a casa. Com esse, senti que não tinha que provar mais nada.
Estou um pouco mais liberta. Acho que ele traz esse clima menos solar,
apesar de eu não estar menos solar.
Xande de Pilares, líder do grupo Revelação, tem três músicas no disco novo. O que acha da segregação entre pagode e samba?
Longe
de mim querer rotular. Queria muito ver alguém que me dissesse qual é a
definição de um e de outro. O universo do samba é muito grande. Quando
comecei a fazer a pesquisa de repertório do Samba meu, vi a imensidão
desse gênero. Tem vertentes, tem história, tem tradições. E o que eu
mais vejo por aí é uma rejeição ao termo samba de raiz. Você fala isso e
o pessoal: “Eu não sou árvore”.
Durante a gravação de um disco, a gravadora se mete na questão artística?
Não.
Com a minha primeira gravadora, eu tive o (Tom) Capone como fiel
escudeiro, que brigou muito pelo meu direito de independência artística
dentro da gravadora. Agora, na (minha atual gravadora), partiu deles a
ideia de eu gravar o Coração a batucar. Eles não se metem no meu
trabalho, eu não me meto no deles. Quando falam “a gente precisa disso,
disso e daquilo pro disco ficar pronto”, eu digo OK.
Isso ocorre por você ser uma artista de status diferenciado?
Acho
que sim. Falando como empresária, se estou entregando resultado, tudo
bem. Eu não entendo nada de marketing, não vou dizer o que eles fazem ou
deixam de fazer. Temos uma parceria. A gravadora me disse que eles me
entendem como uma artista de obra, que vende disco, não singles. Isso
gera um conforto pra eles. Tem um lance com o público que faz com que o
investimento valha a pena.
O repórter viajou a convite da Universal Music.
CORAÇÃO A BATUCAR
Disco
de Maria Rita, produzido por ela. Lançamento Universal Music, 13
faixas. À venda no iTunes (U$ 9,99) e, a partir de 8 de abril, nas lojas
físicas (R$ 24).
Fonte: Diário de Pernambuco
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