Algumas nações asiáticas fundaram a aceleração econômica na exploração
impiedosa de mão de obra abundante e barata. Adiaram o quanto puderam as
contrapartidas típicas do Estado de bem-estar, que oferece aos cidadãos
sistemas abrangentes de previdência, saúde e seguro trabalhista.
Associada a um esforço de industrialização e conquista de mercado para
as exportações, a estratégia de postergar gastos sociais facilitou o acúmulo de
substanciosa poupança, seja nas empresas, seja no governo –duas esferas que se
confundem no modelo asiático. Os superavit externos também caracterizaram
países com Japão, China e Coreia do Sul.
Já o Brasil veio se programando para consumir mais e poupar menos. Mesmo
a ditadura militar, que não tinha compromisso nodal com os trabalhadores,
acabou por reforçar o velho caminho desenvolvimentista de fiar-se em crédito e
investimentos do exterior para catalisar o crescimento
doméstico. Morreu pendurada na brocha da dívida e do FMI.
Em meados
dos anos 1980, quando a ditadura sucumbiu, havia sido despejado nas cidades um
exército de trabalhadores mal remunerados, mal instruídos e mal empregados. Nem
passava pela cabeça dos líderes da democracia nascente propugnar por uma guinada
"asiática", que adiasse gastos sociais em nome da aceleração do
crescimento.
Esse caminho
não seria desejável para um país que buscava a estabilização democrática num
penoso quadro financeiro global. Ainda quando faltasse pão, firmou-se o
compromisso de distribuí-lo sob a forma de gastos assistenciais, trabalhistas,
sanitários, educacionais e previdenciários. A escolha deu certo e ajudou a
elevar o nível de conforto da população. Mas não foi opção sem custos.
Com a
reversão da bonança nos países emergentes, de novo se esvai a ilusão de que
rumávamos para o melhor dos dois mundos –crescimento asiático e cuidado social
europeu.
Fonte: Folha de S.Paulo
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