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COLUNA DO NENA CABRAL



MAIOR PARTE DA POLPULAÇÃO QUER ANULAR LEI DA ANISTIA

Uma pesquisa inédita do Datafolha sobre a Lei da Anistia mostra que a maior parte da população, 46%, é a favor da anulação da norma tal qual ela é aplicada hoje. Os que são contra somam 37%. Outros 17% não sabem dizer.

Hoje, exatos 50 anos após o golpe de 1964, também há mais brasileiros a favor do que contra à proposta de punição dos que torturaram presos políticos na ditadura.

Agora, 46% defendem castigo aos torturadores e 41% são contra. Indiferentes e pessoas que não souberam opinar são 13%. Em 2010, quando o Datafolha fez essa pergunta pela primeira vez, o resultado foi o inverso: 45% eram contra, 40% a favor.

A pesquisa atual, com 2.614 entrevistas, foi feita em 19 e 20 de fevereiro, antes da onda de eventos e reportagens sobre os 50 anos do golpe. E antes da repercussão do depoimento do coronel reformado Paulo Malhães à Comissão Nacional da Verdade.

No último dia 25, Malhães narrou como torturava, matava e dilacerava corpos de opositores durante a ditadura. Disse não ter qualquer arrependimento disso.

Para o diretor-geral do Datafolha, Mauro Paulino, os resultados mostram uma sociedade dividida: "Considerando a margem de erro [2 pontos], as taxas são parecidas".

Segundo ele, a efeméride e o depoimento de Malhães influenciariam pouco nos resultados. "É um tipo de informação que atinge um segmento muito específico da população, só os mais informados e escolarizados", diz.

Recortes por instrução e renda dão uma pista disso. Entre os que têm nível superior e ganham mais de R$ 7.240, o apoio à punição de torturadores sobe para 58%.

Atentados

O Datafolha também perguntou se é o caso de reexaminar atentados contra o governo cometidos por militantes opositores da ditadura.

A proposta não tem força política ou jurídica. Autores de atentados já foram julgados e penalizados com prisões, conforme legislação da época. E muitos sofreram punições não previstas na lei, como tortura e morte.

Apesar disso, a ideia costuma ser repetida por alguns defensores da ditadura em resposta aos que pedem punição aos torturadores.

Resultado: 54% responderam que sim, esses casos merecem reexame. Quando o instituto perguntou se todos deveriam ser julgados hoje, torturadores e ex-militantes, 80% apoiaram.

O ex-ministro José Gregori (Justiça), presidente da Comissão de Direitos Humanos da USP, diz que o apoio crescente à punição de torturadores "é produto dos fatos aterrorizadores que têm vindo à baila na Comissão da Verdade".

"Mas isso não modifica a minha posição de que a Lei da Anistia deve ser mantida como está", diz. "Ela deu-se numa fase de muita complexidade. E embora não seja perfeita, cumpriu um papel importante para a redemocratização ser pacífica."

O historiador Marcelo Ridenti vê influência externa nos resultados da pesquisa. "Em muitos países têm sido feitas comissões da verdade: África do Sul, vários na América Latina, leste europeu. É uma consciência internacional que tem sido incorporada por setores crescentes da opinião pública brasileira."

Polêmica

Lei da Anistia e punição a torturadores são temas polêmicos nos meios político e jurídico. Criada em 1979, a Lei 6.683 anistiou todos os que haviam cometido "crimes políticos" entre 1961 e 1979.

Opositores foram perdoados, exilados puderam voltar.

Desde então, agentes do Estado acusados de sequestro, tortura, assassinato e ocultação de cadáver também passaram a recorrer à Lei da Anistia para evitar punições.

Eles alegam que se tratou de uma espécie de pacto nacional pelo esquecimento recíproco das violências. Juridicamente, se agarram a um trecho da lei segundo o qual a anistia também é válida para "crime conexo".

A disputa está na interpretação dessa expressão. Para os acusados de tortura, conexos seriam todos aqueles crimes praticados no contexto geral da disputa política da época, independentemente do lado em que estavam.

Para os defensores da revisão da lei, essa interpretação não faz sentido jurídico, já que, na prática, representaria uma autoanistia.

Em 2010, o Supremo Tribunal Federal analisou o assunto e decidiu que a Lei da Anistia também valia para os torturadores do regime militar.

Meses depois, a Corte Interamericana de Direitos Humanos condenou o Brasil num caso da Guerrilha do Araguaia justamente por causa dos efeitos dessa interpretação da Lei da Anistia.

Fonte: Folha de S.Paulo


AVANÇOS E RETROCESSOS

Cinquenta anos do golpe militar, quase trinta de volta da democracia. Avançamos em vários campos, principalmente no social e institucional. Tanto que um retrocesso, que ameaça alguns vizinhos, é algo impensável no Brasil.

Mas ainda somos um baita vexame na política. A ponto de a população, que prefere cada vez mais a democracia como forma de governo, avaliar que nela há mais corrupção do que nos tempos da ditadura.

Tal resultado, colhido pelo Datafolha, reflete muito mais o festival de escândalos recentes no país. Do meu lado, arrisco a dizer que a corrupção, nos tempos dos militares, era igual à de hoje, guardadas as proporções de cada momento.

Dizem que os militares, em sua maioria, eram mais probos. Pode ser verdade, mas não justificaria o terror imposto por eles ao país. Ser pretensamente honesto não lhe dá nenhum direito de barbarizar e matar em defesa de suas opiniões.

Só que, ao lado dos generais-presidentes, civis, que apoiaram a ditadura e dela participaram, construíram verdadeiros impérios com base em farta verba pública e de forma nada republicana.

Fazia, como hoje, parte do jogo do poder. Os civis enchiam os bolsos e, em troca, mantinham os militares no Planalto –que, de uma forma ou de outra, também se beneficiavam com algum tipo de regalia.

A diferença é que, naquela época, não tínhamos tantos órgãos de controle como agora. Transparência era produto em falta e aprisionado. Daí que muita roubalheira prosperou sem que a população dela tomasse o mínimo conhecimento.

Enfim, o fato é que, hoje, o brasileiro acha que o país é mais corrupto. Sinal de que, no mundo da ladroagem da verba pública, a sensação é de retrocesso, não de avanço.

Melhoramos, pelo menos, no seu combate. Temos até empresários e políticos atrás das grades por casos de corrupção. Inclusive alguns que lutaram contra a triste ditadura.

Fonte: Folha de S.Paulo


UMA HISTÓRIA DO ATEÍSMO

Em "Imagine There's No Heaven" (imagine que não há paraíso), o jornalista Mitchell Stephens se propõe a contar a história do ateísmo e mostrar como a descrença foi importante para fundar o mundo moderno. Não é uma tarefa fácil, mas o autor consegue cumprir seus objetivos e ainda oferece ao leitor uma narrativa fluida, informativa e gostosa de acompanhar.

Uma das principais dificuldades para traçar a história do ateísmo diz respeito às fontes. Em momentos de maior religiosidade, textos ateus (quando não seus autores) costumavam parar em fogueiras. Isso faz com que só tenhamos relatos indiretos, muitas vezes elaborados pelo inimigos, das ideias de figuras capitais como o filósofo grego Diágoras de Melos ou os caravaka, a escola de pensamento hindu que nega não apenas os deuses mas também a reencarnação, o nirvana e tudo aquilo que chamaríamos de religioso.

E não é só. Mesmo quando autores se arriscavam um pouco mais, procuravam disfarçar suas reais opiniões para que não se afastassem tanto da ortodoxia. Graças a isso, não temos muita certeza se devemos classificar como ateus, agnósticos ou deístas filósofos do porte de David Hume e Thomas Hobbes.

Apesar desses obstáculos, Stephens mostra muito bem como o ceticismo e a contestação às ideias estabelecidas estão na base não apenas da revolução científica como também dos movimentos políticos e filosóficos que desembocariam no Iluminismo, nas revoluções francesa e americana, na modernidade, enfim.

Ao contrário de várias publicações recentes que tratam do ateísmo, "Imagine" não é um texto militante. Stephens diz logo nas primeiras páginas que é preciso reconhecer as contribuições da religião para as vidas das pessoas, as artes e até para a moralidade, mas que isso não é motivo para deixar de ver tudo de importante que brotou da ideia de que vivemos sem deuses. 

Fonte: Folha de S.Paulo



 

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